Lamento da Sereia
Em um mundo onde existem sereias e tritões, essas criaturas místicas tem uma vida bem triste e solitária. Um humano se torna uma sereia quando se joga no mar e está com seu coração partido, então uma sereia ou tritão, canta uma música e beija o humano. Isso faz com que essa pessoa vire sereia e a sereia vire humano.
As sereias querem ser humanas porque quando se tornam criaturas místicas, elas perdem totalmente a memória de quando eram humanos. A solidão também é um preço bem caro a se pagar, já que sereias normalmente ficam completamente sozinhas. Afinal, você não pode dividir a caça e elas tem o instinto de ficarem sozinhas, já que viraram sereias por terem tido seus corações partidos.
Uma sereia sabe que o coração de alguém está partido, isso por conseguirem ver uma luz azul sendo emitida do coração dessas pessoas, quanto mais machucada a pessoa estiver, mais forte a luz vai brilhar. As próprias sereias não possuem um coração, então nenhuma luz é emitida por elas.
As sereias não comem e não tem absolutamente nada pra fazer, além de ficarem sozinhas no escuro e esperando por um humano para poderem amar e viver uma vida cheia de alegria outra vez. Sereias também não se reproduzem, então sem genitais.
Quando um humano se torna uma sereia, ele tem uma habilidade que é ampliada e isso é chamado de dom. Por exemplo, se você gostasse muito de dançar, então seria um dançarino esplêndido. Ou se fosse um apaixonado por arte, seu dom poderia ser o desenho. Mas também tem seu lado místico, já que se fosse bom em ler as pessoas, então poderia ser um leitor de mentes ou um vidente. Um bom conselheiro seria muito bom nisso e saberia como resolver problemas.
Todos os dons seguem essa mesma linha. Quando as sereias estão exercendo seus dons, é o momento em que sentem uma parte do seu coração incapaz de amar ficando mais quente, como se pudessem ser felizes.
A história é protagonizada por um tritão chamado Ian. Esse tritão viveu sozinho por muito tempo, tanto que ele nem podia contar e seu dom era a liderança e consecutivamente, também era muito bom em resolver problemas. Ian tinha o coração tão machucado e triste, que não conseguia ver nada além da escuridão, ansiava pelo dia em que veria uma humana para poder se sentir vivo outra vez.
Ian tinha cabelos brancos, olhos dourados e pele um pouco mais escura que a de Tua, seu corpo era bem definido e se orgulhava muito de sua aparência. Ele adotou a personalidade narcisista como uma forma de auto defesa, sua metade peixe era azul ciano, era escuro na ponta e clareava até o começo do tronco, também era um pouco brilhante. Ele tinha motivos pra ser orgulhoso.
Ele não era muito diferente dos outros, por mais que estivesse sozinho, ainda tinha amigos, o mais próximo era um tritão chamado Tua, ele era de aparência indígena. Mas eles não passavam muito tempo juntos por motivos óbvios.
Um dia, Ian encontrou uma sereia recém transformada, ela ainda não sabia muito bem o que estava acontecendo. Ele foi paciente e explicou tudo a ela. Essa seria chamada Lily, resolveu quebrar as regras e ficar perto do Ian, mesmo contra a vontade dele. Logo eles se acostumaram um ao outro e viraram amigos que tinham medo de ficar sozinhos.
Ian apresentou Lily a Tua, esse que apresentou uma sereia chamada Pele (nome de uma deusa do fogo) carinhosamente apelidada de Pels. Ela era negra, tinha cabelos pretos e olhos castanhos. Sua metade peixe era de um amarelo claro muito bonito, combinava com sua pele e a deixava ainda mais bonita. Seus olhos castanhos e brilhantes também não podiam passar desapercebidos, por eles você podia ver sua personalidade delicada e um pouco bruta às vezes. Seu dom era a dança, mas ela não podia dançar, já que ser meio peixe complicava isso e sempre que tentava, acabava enroscada nas algas marinhas.
Assim os quatro se aproximaram cada vez mais, ainda eram solitários a sua própria maneira e na maioria das vezes, cada um ficava com sua dupla ou sozinho. Mas mesmo assim, era algo que podia ser chamado de amizade. Eles chegaram até mesmo a fazer algumas viagens juntos. Tua ficava perguntando como deveriam se chamar, se eram um cardume ou um bando. Todos riam mas ninguém nunca respondeu, era como se quisessem evitar mais aproximação, já que isso sempre foi sinal de perigo.
Ambas as duplas se davam muito bem, foi como se mesmo como sereias, pudessem sentir o coração aquecendo um pouco mais. Lily e Ian só ficaram como amigos, mas Tua e Pels se apaixonaram, quiseram quebrar todas as leis e tentar um romance, mesmo que isso fosse contra a natureza imposta a eles.
Mas tudo isso tinha um problema, depois que descobriram esses sentimentos, eles não podiam mais se tocar ou sentiam uma queimação horrível e saia espuma do mar. Nada disso era bom, já que eles viravam espuma do mar quando morriam, era como uma ameaça real a vida. Mesmo com essas dificuldades, eles resolveram manter a relação, mas sem se tocarem. Aquilo era uma tortura para eles e para Lily, mas principalmente para Ian que aguentava ver o sofrimento dos dois. Contudo, não era como se pudessem fazer algo a respeito.
Um dia, enquanto Ian nadava sozinho, ele esbarrou em outra seria, essa era Eva. Seus cabelos pretos e longos, sua pele branca e sua cauda preta, a faziam parecer como uma boneca. Uma escultura cuidadosamente feita pelo melhor artesão. Seu dom era realmente especial, ela podia saber quem dizia a verdade, conseguia saber o caráter as pessoas e tinha uma intuição muito afiada para o que fazer.
Eles se tornaram bons amigos e passavam muito tempo juntos. Ian ficou solitário quando Lily disse que queria seguir sozinha por um tempo e explorar os sete mares. Então foi bem receptivo quanto a Eva. Ela se tornou seu braço direito e a pessoa em quem mais confiava, pedia conselhos e aos poucos, foram se tornando parceiros inseparáveis, como dois irmãos.
Como seres místicos e intocáveis pelo avanço físico da idade, as sereias não se importavam realmente com a passagem do tempo, na verdade, nunca lhes passou pela cabeça contar os dias. De que adiantaria? Só serviria para aumentar seu sofrimento.
Muito tempo depois para os humanos, mas semanas para as sereias, Eva também ficou triste enquanto via a relação entre Tua e Pels. Foi quando teve a ideia de junto a Ian, fundarem seu próprio reino, onde aqueles infelizes com a maldição e puros de coração pudessem ser felizes. Aqueles cansados da solidão poderiam viver em grupo e sorrir, se sentiriam livres para usarem seus dons e sentiriam um pouco da felicidade que lhes foi tirada.
Ian que confiava em Eva, aceitou a ideia. Ele seria o líder e ela a conselheira. Eles iriam juntos lutar contra a maldição de Poseidon e fazer com que aqueles que realmente quisessem, pudessem entrar e serem felizes. Eles pensaram bem, desenvolveram a ideia e colocaram em prática. Encontraram um um lugar espaçoso, claro e colorido. Era como uma ilha dos sonhos. Tinham corais coloridos e peixes das mais variadas cores e espécies nadando. A visão era como uma utopia.
Os primeiros a entrarem foram o casal de amigos Tua e Pels, se sentiram felizes de uma forma que nem acreditavam ser possível. Logo a notícia se espalhou, até que chegou aos ouvidos de Poseidon. Ele já tinha conhecimento de que sua benção se tornou uma maldição para aqueles que não queriam aquela segunda vida. Então, o deus do mar que percebeu como as sereias estavam solitárias, fez um acordo com Ian para que o lugar continuasse existindo e não sofresse com sua ira. Ele prometeu deixar a ilha existir e fazer com que as sereias pudessem se tocar, mas com uma condição. Os únicos que poderiam ser aceitos, seriam aqueles com bom caráter e verdadeiras intenções de viver em paz e harmonia, os realmente necessitados. Ian, que pretendia isso desde o começo, aceitou.
Com a benção de Poseidon e o trato feito, começaram as duras entrevistas de entrada. Os candidatos tinham que se mostrar dignos. A entrevista era feita no escritório que Ian construiu. Separados por uma mesa, Ian se sentava em uma cadeira e Eva ficava em pé ao seu lado, juntos, eles julgavam os candidatos. Mas essa era a teoria, Eva era aquela que dava a palavra final, já que ela podia sentir o coração das sereias. A dupla de amigos era vista como a autoridade absoluta que mantinha a paz em seu paraíso utópico.
Um dia, Lily se apresentou como candidata. Ela poderia ter entrado mesmo sem uma entrevista, mas a preferência não deveria ser mostrada assim. Eva também concordou com sua entrada, mesmo que tivesse suas dúvidas. Ela não queria deixar o Ian sofrer mais ainda com a solidão.
Com o tempo, Lily e Ian se reaproximaram, tanto que começaram a namorar e até se casaram. Dividido entre a vida com Lily e o trabalho, Ian estava muito feliz. Mas ele não sabia que Lily não se sentia assim, que aos poucos ela começou a se sentir solitária. Até que encontrou Adam, eles estavam realmente se tornando amigos.
Conforme o tempo passou, Lily se apaixonou por Adam e eles começaram a ter um caso. Ian que se perdeu em meio a felicidade que sentia, não percebeu nada. Lily tão pouco queria contar para Ian, já que não queria ver seu antigo amado triste. De alguma forma, ela ainda se importava com ele.
Em um dia no fim do turno, Eva disse a Ian que algo não ia bem, sentiu que a linha do amor entre Lily e Ian tinha se enfraquecido e se desculpou por não ter percebido antes. Pela primeira vez, Ian não quis acreditar em Eva, mas seus sentidos não deixavam que ele realmente o fizesse. Possuído pela curiosidade e pela culpa por desconfiar de Lily, Ian foi ver o pôr do sol e tentar colocar os pensamentos em ordem. Mas quando chegou lá, viu Lily com Adam. Os olhos de Lily estavam tão brilhantes como nunca, seu sorriso era alegre, como se realmente se divertisse. Ian que por algum tempo, ficou parado atrás de uma pedra e está sem saber o que fazer, simplesmente não queria acreditar em seus olhos.
Devastado, ele voltou ao escritório e chamou por Eva que logo foi ao socorro do amigo. Eles conversaram e ela pôde ver que o imenso amor de Ian por Lily, foi capaz de criar um coração em seu amigo e como o sentimento foi tão grande, seu coração brilhava tão fortemente que iluminava todo o cômodo.
Como sereias são atraídas naturalmente por corações partidos, algumas delas se aproximaram por curiosidade. Ian que percebeu isso, tratou de suprimir esse brilho o máximo possível. Mas logo depois de fazer isso, Lily apareceu na sala com um brilhante sorriso, como se nada tivesse acontecido e perguntou de onde veio aquela luz azul, como se ela realmente se importasse.
Ian fez seu melhor para se conter, mas logo depois que Lily saiu, Eva levou Ian para um lugar afastado, onde ele pudesse chorar o quão alto quisesse e seu coração partido pudesse brilhar.
No fim, o paraíso de Ian acabou de tornando sua gaiola de tortura. Ele terminou com Lily que disse friamente não amar a muito tempo Ian, que era mais feliz com Adam do que nunca foi em toda sua vida e saiu com seu olhar frio.
O sonho acabou com Eva confortando Ian que chorava descontroladamente enquanto lamentava por seu coração partido.
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